A VIDA EM TEMPO DE VÍRUS

Quando era criança imaginava muitas vezes como era a minha rua quando eu não estava lá. Aproveitava quando ficava em casa, sem aulas, para me assomar à janela a observar o movimento das pessoas e escutar os sons que vinham de fora. Havia um centro de raio x e eu contava quantas pessoas lá iam naquele dia, também havia uma tipografia e eu conhecia o seu barulho de cor, era um ritmo cadenciado e único. Ficava à espera que, quando eu estivesse lá, fosse diferente. Acho que não era.

Também imaginava como seria a vida em tempos de guerra. Porque havia pessoas que estavam nas suas casas, nos seus empregos e tudo continuava, apesar de. Dou comigo a comparar o momento atual com uma situação de guerra, ou de crise, vá, para não ser tão dramática. Mas é o que sinto. Com a especificidade de tudo se desenrolar à escala global.

Primeiro era lá longe, coitados. Depois veio percorrendo um caminho que, inevitavelmente, passa por Portugal. Começou no Norte e estendeu-se. Já todos temos um amigo de um amigo que conhece alguém que teve contacto com alguém infetado. E as primerias medidas começam a chegar. Assusta sempre um bocadinho, apesar de racionalmente tentarmos levar a coisa com a leveza possível. Confiamos (eu confio) no Estado e acredito que tudo está a ser feito da forma mais tranquila e com planeameamento, mas, na verdade, é tudo muito imprevisível.

Hoje estive de volta de cancelamentos de eventos e de um plano de contingência que prevê o que devemos fazer se houver suspeita de infeção e a coisa começa a ficar muito próxima. Por muito que não se queira, entramos no circuito e normalizamos dentro das nossas possibilidades. Tendemos a fazer isto com tudo, não é?

O que me faz muita confusão são as teorias da conspiração. Algumas leio, outras nem por isso e acabo por me divertir a pensar como é que alguém se lembra de uma coisa dessas?! E os pormenores, os nomes dados a pessoas implicadas, tudo ali "tintim por tintim" sem hesitações. Bravo.

O assustador é haver quem acredite piamente nessas teorias e as difunda por outros que acreditam da mesma forma.

Talvez seja o mundo a ajustar-se, como nós pessoas que começamos por não dar importância e (oxalá que não) acabamos reféns de um imprevisto viral, no verdadeiro sentido da palavra.



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