Dia 15
Quando éramos pequenos, alugávamos uma casa na praia à quinzena. Seriam os últimos dias de julho ou os primeiros de agosto conforme as disponibilidades. Eram 15 curtos dias para tanta atividade: praia, praia, praia. Peixe fresco do Isaías ao almoço, sopa da D. Maria ao jantar. Alguns passeios. Em Sesimbra, uma ida a Troia. No algarve, uma a Ayamonte. O tempo passava a correr. Havia filas na nacional e também nos cafés de Canal Caveira. Acordavam-me às 6h da manhã, porque "assim ainda damos um mergulho de manhã". Havia um movimento louco de pessoas em todo o lado. Cada vez maior. Até começar a detestar ir de férias nesses meses.Eu cansei-me desses movimentos, ainda antes "disto". Creio que as cidades, os monumentos, as estradas e as praias demoraram muito mais a perder a paciência. Aguentaram até ao limite a ocupação, muitas vezes, selvagem das pessoas. O barulho, a urgência de chegar depressa, de ir a todos os sítios, de estar sempre a enganar a evidência de não sabermos o que fazer quando não temos nada para fazer. Talvez seja isso que tenhamos que aprender: a não fazer nada.
Estes 15 dias têm sido longos. Ficar em casa não é um castigo para mim. Mantivemos algumas rotinas como horários de trabalho, de refeições, de deitar e acordar. Há mais elasticidade, sim. Mas a rotina, existe da mesma forma. Porque essa rotina nos dá a segurança que nos escapa pela situação. Ninguém sabe como isto vai acabar. Estamos a lidar, em tempo real, com uma pandemia mundial.
Estamos a deixar escrito/documentado/fotografado de uma forma inédita, não só a big picture, mas também estes pequenos desabafos que contam a história dos menos visíveis. Nós. Os que apenas têm que ficar em casa para fazer a diferença. É tão pouco. Vamos cumprir. Por favor.


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